Com a inflação beirando os 10% no ano, o comportamento dos brasileiros no supermercado mudou. A mesa está menos farta, a variedade de produtos é menor, mas, ao economizar comprando menos quantidade e menos itens, sobra um trocado para levar ao menos um "luxo", como que em um afago à memória dos tempos de bonança - ou, ao menos, para se sentir menos pobre. Essas são algumas das conclusões da pesquisa feita pela Dunnhumby, consultoria de mercado com sede em Londres. "A crise força os clientes a tomar decisões mais fortes e conscientes", diz Adriano Araújo, diretor geral da Dunnhumby no Brasil, onde a empresa tem como clientes empresas como Pão de Açúcar, Coca-Cola, Drogasil e Unilever. "Assim, ele escolhe categorias que realmente fazem a diferença para ele. Nas categorias menos importantes, ele vai para o mais barato."
Os salgadinhos são os primeiros a serem riscados da lista: 30% dos entrevistados disseram que não os compram mais. Em relação aos produtos de limpeza, os mais baratos agora são os mais procurados - 38% dos consumidores ouvidos afirmaram ter optado por marcas mais econômicas. Já com bebidas alcóolicas (cerveja, vodca e vinho), a qualidade é o que mais importa - 42% afirmaram ter mantido a marca, mas reduzido a quantidade. Obviamente, os alimentos básicos (arroz, feijão e açúcar) continuam a vender a todo vapor - 54% disseram ter conservado o mesmo padrão de consumo de antes da crise.
Sim, a crise força compras menores e de versões mais baratas de produtos essenciais. Mas, no Brasil pós-ascensão da classe C, agora a carestia dá chance a um mínimo de autoindulgência. "Os dois extremos - o dos produtos mais baratos e o dos mais caros - são os menos afetados. A faixa intermediária é a que se dá pior", afirma Araújo. A Dunnhumby ouviu 700 consumidores das classes A, B e C entre os dias 25 e 28 de agosto deste ano.
Segundo a pesquisa, 80% dos entrevistados declararam economizar em determinados produtos para manter o luxo em outros. É o caso da empregada doméstica Alcione Souza, de 26 anos. Mãe de uma menina de 4 anos, ela diz que cortou tudo o que podia. "Mas com criança não dá para cortar leite, biscoito e 'Danone'. Por isso, economizo no material de limpeza. Nem sei mais o nome do sabão em pó que compro", diz. O mesmo raciocínio, embora com outros itens, fez a funcionária pública Ivete Santos, de 46 anos. Ela diz ter eliminado de sua lista de compras o que chama de "besteirinhas" - salgadinho e biscoito -, mas na sua geladeira não podem faltar os iogurtes funcionais. "Para mim, eles são saúde".
"O necessário, somente o necessário. O extraordinário é demais", cantarola a professora Maria Rosa, de 83 anos, ao ser perguntada sobre o que continua comprando com o orçamento mais apertado. "Antes eu comia mais fruta do que arroz e feijão. Agora, é o contrário", conta. Ainda assim, ela não eliminou alguns luxos, como tomar uma taça de vinho à noite no jantar. Em vez das caras frutas, arroz e feijão - e vinho.
As principais vítimas da alta dos preços são os mais pobres. Nos cálculos da Associação Paulista de Supermercados (Apas), enquanto as classes A e B gastam, em média, 22% da sua renda com o abastecimento de produtos básicos, as classe C, D e E consomem 40% da renda. "O brasileiro tentar manter o seu padrão de consumo. O país teve uma evolução muito rápida nos últimos anos. E essas pessoas que nunca tiveram acesso a certos produtos não querem mais perdê-lo", diz Rodrigo Mariano, economista da entidade.
Com informações de Veja
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